quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nesta semana, optei por replicar um texto bem interessante que recebi pela internet há alguns dias, sem que tivesse citado o autor. Peço desculpas, mas ainda assim achei conveniente compartilhá-lo. Caso alguém conheça o autor, basta acessar o site abaixo e me enviar o nome para que eu possa ser justo e mencioná-lo. Ficarei agradecido. O texto conta a história de um executivo que decidiu tirar uma semana de férias numa vila de pescadores. 
O executivo gostava do mar e desejava sossego. Então, alugou uma modesta cabana numa vila de pescadores e partiu para lá com seu carro cheio de mantimentos. 
Uma semana sem fazer nada, longe do estresse diário, sem celular nem televisão, apenas vivendo no paraíso. 
No primeiro dia, ele acordou bem cedo, pegou sua esteira, seu guarda-sol, passou protetor solar e foi à praia. Ainda estava arrumando suas coisas na areia quando viu seu vizinho pela primeira vez. Era um pescador local. Tinha a pele bronzeada, uma aparência saudável e, apesar dos cabelos brancos, um corpo jovial. O pescador colocou uma canoa na água, remou até passar a formação das ondas e jogou a rede. Ao puxá-la, vieram uns cinco ou seis peixes. Ele escolheu dois e devolveu os outros ao mar. Voltou com o barco, guardou os peixes e passou o resto do dia passeando pela praia. 
No dia seguinte a mesma cena se repetiu. Curioso com a atitude de seu vizinho, o executivo não resistiu e abordou o pescador quando ele retornava da pescaria: 
- Desculpe-me a intromissão, mas por que você joga a maioria dos peixes que pesca de volta ao mar? 
- É porque eu só preciso de dois, um para o almoço e outro para o jantar - respondeu o pescador. 
O executivo ficou inconformado com tamanha ignorância. 
- Você está fazendo errado. Deve trazer todos, assim poderá vendê-los - recomendou. 
- Para quê? - perguntou o pescador, surpreso. 
- Porque com o dinheiro da venda você poderá comprar uma rede melhor e pegar mais peixes. 
- E o que eu faria com mais peixes? 
- Ora essa! Vendendo mais peixes você poderá comprar um barco maior e pescar ainda mais peixes... Com o dinheiro da venda destes poderá comprar outro barco e contratar pessoas. Seus barcos poderão fazer pesca em alto-mar, e assim você ganhará mais e mais dinheiro. 
- É mesmo? 
- Claro! E quando você tiver bastante dinheiro não precisará mais trabalhar. Já pensou? Se quiser, poderá ficar na praia o dia todo sem fazer nada - exclamou o executivo. 
O pescador coçou a cabeça sem entender, olhou para o homem à sua frente e disse: 
- Pois é, mas isso eu já faço pescando só dois peixes por dia... 
Não desejo replicar de maneira alguma a idéia de que devemos simplesmente nos conformar com o que temos, muito menos sugerir acomodação, mas talvez as coisas sejam muito mais simples do que imaginamos.
Pescar só por pescar ou utilizar a pesca apenas como meio para se obter mais e mais acaba por distorcer o real propósito, causar um sentimento de eterna insatisfação, vazio interior e tornar a vida desinteressante.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Mais gente, menos gestão

Ultimamente tenho tido bastante contato em empresas com equipes responsáveis pela área de Recursos Humanos. A criação desta área em empresas de grande porte e mais recentemente até mesmo nas de média e pequena estrutura já são um grande avanço quando temos como comparativo o cada vez mais obsoleto ‘D.P.’ (departamento pessoal) ainda presente em algumas empresas e em órgãos públicos.
 Hoje há departamentos de recursos humanos que participam diretamente de decisões estratégicas de empresas. Cá entre nós isto é uma decisão extremamente salutar, mas ainda não são todos os profissionais que conseguem ter a abrangência de visão necessária para isto. Na realidade, há cerca de dez anos uma transição conceitual vem ocorrendo de maneira mais acentuada no modo de encarar a função da área. E como já abordamos em colunas anteriores mudanças podem gerar desconforto. Principalmente quando esta mudança é estrutural. E neste caso não se trata apenas de uma mudança estrutural, mas uma série de paradigmas que devem ser quebrados.
Durante décadas o foco das empresas era a elaboração dos processos, a parte gerencial, os resultados de modo geral e o desenvolvimento de habilidades diretamente ligadas à questão técnica. Hoje isto mudou e o foco deve ser nas pessoas. Nada mais normal em um mundo cada vez mais competitivo, onde há um nivelamento na qualidade da mão de obra e por inúmeros fatores a comunicação e a relação interpessoal está cada vez mais difícil. Contudo, há alguns itens que devem ser observados para que isto aconteça, dentre os quais está o preparo do gestor da área de recursos humanos.
O fato é que alguns gestores ainda não perceberam isto. Alguns já conseguiram enquanto outros simplesmente ignoram esta tendência. Há outros ainda que se encontram no meio do trajeto ou construindo uma ponte entre os dois pontos que separam a idéia da realização. Mas, dentre estes profissionais encontram-se aqueles que ainda não tomaram vulto da importância desta visão global e focam suas atenções apenas em processos, procedimentos, temas menos importantes e em clichês da área.
É preocupante quando em reuniões que participo ao invés de salientar os pontos que devem ser trabalhados e desenvolvidos alguns ficam mais preocupados em demonstrar ‘todo o seu conhecimento’ na área e abusam de termos ‘enlatados’.  Já ouvi frases tão recheadas destes termos que perderam totalmente o sentido. Coisa do tipo: “É importante vermos direito o ponto sobre treinamento, porque o target envolvido está fora do meu budget. Acho que esta questão interfere no turn over e nos processos e está diretamente ligada à Geração Y, que tem foco no fator sócio ambiental e no business.”
Confesso que não entendi nada e que fiquei um pouco assustado com a miscelânea gramatical e conceitual que me foi apresentada. Não tive a oportunidade, mas se pudesse teria dito a ela duas coisas: Por favor, mude seu foco. Menos clichês e mais visão. Mais gente e menos gestão.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O risco do elogio

Há uma máxima que é difícil lidar com críticas. Basta ouvir declarações de artistas, atletas, políticos e comentários de pessoas que são criticadas para perceber o quanto esta percepção é comum. Concordo com isto em certo ponto, pois não deve ser simples realizar bem seu trabalho lidando com críticas contínuas. Entretanto as críticas podem servir como alerta e estímulo para melhorias. Deve haver uma análise criteriosa e imparcial sobre a crítica recebida. Algumas delas servem para nos redirecionar e são recebidas de pessoas que querem realmente nosso crescimento, enquanto outras são propositadamente destinadas a nós com o único objetivo de nos desestruturar e são lançadas por pessoas que não se importam realmente conosco.
Contudo, quero usar este espaço para trazer uma visão um pouco diferente. Ter estrutura para lidar com críticas é difícil, mas ainda que não pareça, acredito ser bem mais difícil lidar com. elogios!!! Pode parecer estranho, mas analisando friamente, você verá que faz sentido.
Inevitável neste momento não citar a famosa frase de Santo Agostinho, que diz: ‘Prefiro os que me criticam porque me corrigem, aos que me adulam porque me corrompem’. Frase que parece bastante dura a princípio eu sei, mas que traz em si uma reflexão bem interessante. 
Perceba o seguinte: não estou dizendo que é ruim receber elogios e sim que é importante saber lidar de modo equilibrado com eles. Logicamente é bacana ouvir um elogio, felicitações por algo realizado, por um trabalho bem feito. Particularmente, quando recebo um elogio a sensação que tenho é a de dever cumprido, mas principalmente a de que minhas responsabilidades foram multiplicadas. Devemos sim aceitar os elogios e não rechaçá-los. Todavia devemos também ter o discernimento necessário para saber quando tal elogio é verdadeiro ou quando não passa de bajulação.
E é este ponto que quero salientar. O elogio pode ser traiçoeiro, já que mexe com um dos sentimentos que os seres humanos têm mais dificuldade em lidar: a vaidade. E aí as coisas ficam estreitas. O elogio alimenta a parte que os psicólogos chamam de ‘ego’, na realidade não apenas alimenta, mas vicia. É a ração ideal para a soberba, a prepotência e a empáfia. Faz com que pessoas julguem-se acima do bem e do mal, deixem de buscar seu auto desenvolvimento e faz algo ainda mais nocivo. Elogios escondem erros, fazem com que oportunidades de melhoria sejam ignoradas e atitudes megalomaníacas sejam tomadas. Um perigo para pessoas e empresas.
Mas como lidar com eles, os elogios, afinal? O correto seria lidar com serenidade e humildade, o que infelizmente é bem raro. O que vemos na maioria das vezes é a adoção de uma postura por parte do ‘elogiado’ de quem está acima do bem e do mal, aquela pessoa que se acha ‘ a última bolacha do pacote’ ou ainda aquela ainda pior, a da falsa modéstia, que esconde atrás do véu de simplicidade uma dose cavalar de arrogância. Entendeu o tamanho do perigo?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Adianta?

Muitas pessoas, sem perceber, pautam sua vida em uma perigosa premissa. A de querer sempre agradar aos outros. Há algum tempo ouvi de uma pessoa muito querida, daquelas que passam na nossa vida e deixam uma marca positiva, um aprendizado consistente que não adiantava querer agradar a todos sempre. Por dois motivos: o primeiro porque isto é absolutamente impossível, já que quase que automaticamente ao agradar uns iremos desagradar outros e em segundo lugar porque muitas vezes para agradar alguém temos de desagradar a nós mesmos.
Todo este parágrafo inicial parece meio clichê, coisa de revista de banalidades, mas esta questão tem uma raiz bem mais profunda e repercute na nossa vida de um modo que não podemos imaginar. Desde pequenos somos educados, criados para atender às normas e padrões vigentes. Até aí nenhum problema, já que são importantes algumas diretrizes que nos possibilitem viver em comunidade. O problema é que ao tentarmos sempre nos ajustar aos padrões que nos são impostos por pais, professores, amigos e a sociedade de modo geral vamos aos poucos perdendo nossa individualidade. 
Em determinados momentos é importante que nossas capacidades, nossos desejos, nossos sonhos sejam priorizados. Contudo é justamente nestes momentos que diversas influências externas tendem a nos tirar do caminho, pois surge um terrível dilema: devo fazer isto? Mas o que os outros vão pensar? Talvez ‘fulano’ se chateie comigo... Isto é muito comum, por exemplo, na escolha de uma profissão, quando a pessoa quer fazer algo específico e é influenciada a fazer ‘um algo’ diferente daquilo. Conheço dezenas de pessoas que até hoje sofrem com isso. Em outros segmentos da vida, também não é diferente. Hoje pessoas colhem frutos, às vezes não muito saborosos, de escolhas que fizeram para agradar outras.
Relaxe. Isto é mais comum do que se imagina. Já aconteceu comigo, com você e com pessoas que conhecemos. Temos apenas de estar atentos para que isto não se torne uma constante. O ser humano tem uma necessidade enorme de ser aceito, de sentir-se bom o suficiente, sentir-se adequado ao contexto em que vive ou receber julgamentos positivos. O problema maior reside no fato de, sem percebermos, deixarmos de lado nossa real identidade, nossos reais desejos e seguirmos nosso caminho sendo guiados por desejos e sonhos que não são nossos.
Os resultados disto? Posso afirmar que nenhum muito positivo. Frustração, insatisfação, dificuldade de auto aceitação, pois agradando aos demais nos distanciamos do que somos e do que realmente queremos, o que em algumas situações gera uma terrível ruptura com padrões pessoais que nos norteiam e com nosso real propósito de vida. 
Enfim, um conflito interno que gera ansiedade, desmotivação, estresse, tristeza, angústia e outros sentimentos que são extremamente nocivos para a saúde física, emocional e mental. Ficam então algumas perguntas: Adianta? Será que de um jeito ou de outro não seremos julgados pelas pessoas? Não seria então mais adequado buscarmos os nossos sonhos? Então por que não fazemos isto? Vale refletir, não é?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Zé do Parafuso

Nos treinamentos que ministro em empresas menciono algumas histórias que direta e indiretamente fazem alguma alusão aos contextos profissionais de forma geral, do mais simples ao mais elaborado ofício. Esta é possível que você já tenha ouvido por aí.
É a história do ‘Zé do Parafuso’. Diz a lenda que este senhor era um exímio mecânico de máquinas. Consertava tudo, desde liquidificador, até máquinas que valiam milhares de dólares. E como se não bastasse consertar tudo, ainda na maioria das vezes fazia o serviço muito rapidamente. Era um sujeito humilde, simplório, mas muito bom no que fazia. Sua fama corria a boca pequena nas fábricas que se espalhavam pelo país. Sua técnica? Segredo absoluto. Seus instrumentos e equipamentos de trabalho? Nada de excepcional. Uma pequena mala de ferramentas que qualquer ser humano precavido deve ter em casa. Chave de fenda, martelo, grifo. Nada de equipamentos modernos e eletrônicos. Orgulhava-se em dizer que seus equipamentos mais modernos eram seus olhos, ouvidos, mãos e a ‘cabeça que punha para pensar’. 
Eis que uma grande indústria, daquelas que não podem se dar ao luxo de ter um equipamento danificado, passou por um sério apuro. Justamente a máquina mais cara, que produzia as peças mais minuciosas e que era o centro da produção pifou. Nada a fazia funcionar novamente. A tal máquina era importada e depois da visita mal sucedida de três técnicos, um dos funcionários disse: ‘Para arrumar isso aí, só o Zé do Parafuso’. O diretor quis saber de quem se tratava e pediu que o trouxessem imediatamente à fábrica. Zé do Parafuso, também famoso pela sua presteza, chegou ali pouco tempo depois. A expectativa era grande, afinal quase uma centena de homens estava parada e isso significava muito dinheiro perdido. 
Zé do Parafuso chegou e perguntou como havia sido o barulho. Deu a volta na máquina, tocou-a carinhosamente até que seus olhos pararam em uma das engrenagens. Com um sorriso de canto de boca simplesmente agachou, tirou uma chave da mala, apertou um parafuso e ordenou: ‘Liga a danada!’. Diante de homens boquiabertos e nem cinco minutos depois de ter chegado, a ‘danada’ voltou imediatamente a funcionar. O diretor radiante de felicidade, perguntou qual o valor do serviço. Em um segundo a alegria se transformou em indignação e perplexidade. Valor do serviço: 1.000 reais.
Como? Nem cinco minutos de serviço e este caboclo me cobra 1000 reais? Ele está louco! Ao voltar para a sala ainda esbravejando foi ler a nota que discriminava o serviço, escrita em uma folha de caderno toda amassada.
- Ajuste do parafuso = 1,00 real
- Saber qual era o parafuso que deveria ser apertado = 999,00 reais. O diretor então sorriu com a mescla de simplicidade e sabedoria daquele homem.

Costumo contar esta história para salientar a importância de cada um dentro da organização. A ‘expertise’ deve ser valorizada e remunerada de forma justa, de acordo com a qualidade dos profissionais envolvidos. Jamais devemos minimizar a importância ou colocar preço no trabalho dos outros. Quem é bom no que faz deve ser valorizado.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Resiliência

De tempos em tempos alguns termos são tomados por empréstimo e utilizados em segmentos diferentes daqueles de onde se originaram. Um termo em especial, ocupou os últimos anos e foi aplicado insistentemente pela psicologia e pela área de recursos humanos e gestão de pessoas. No contexto corporativo então, foi e ainda é utilizado exaustivamente.
O termo resiliência que na física, de onde foi emprestado, é conceituado como a propriedade de que são dotados alguns materiais, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse sem ocorrer ruptura. Este conceito foi redefinindo e incorporado no ambiente empresarial sendo uma habilidade pessoal, a capacidade do indivíduo em responder às situações adversas, problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão que estas situações acarretam sem se desestabilizar emocionalmente ou recuperando rapidamente seu equilíbrio. De modo bem coloquial, seria o limiar individual em ‘aguentar o tranco, sem espanar’ e ainda responder positivamente às demandas existentes, característica que é considerada um grande diferencial competitivo.
Neste caso especificamente foi positiva a incorporação deste termo, pois uma série de estudos foi realizado para esmiuçar este conceito e a sua real abrangência no cotidiano das empresas. Ainda assim, talvez uma parte muito relevante tenha passado despercebida. Continuando no campo da física, o limiar de resiliência ainda está ligado aos conceitos relativos à plasticidade e elasticidade e inclui o percentual da energia devolvida após a deformação. Isso mesmo. Além de não ceder às pressões, resiliência diz respeito ao quanto podemos gerar de contrapartida usando exatamente a energia que teoricamente seria a responsável por nosso desgaste. Parou para refletir sobre isto?
Parece incrível, mas resumidamente esta tal resiliência também deve ser considerada justamente a capacidade de tirar dos desafios, das situações desfavoráveis o combustível essencial para seguirmos adiante! 
E é aí que reside a grande questão. Se formos fazer uma avaliação criteriosa, grandes líderes, grandes campeões, grandes ícones da humanidade utilizaram exatamente esta força, que denominamos hoje resiliência, para lutar com mais fervor e conquistar seus objetivos. Quer exemplos? Nelson Mandela, Ayrton Senna, Dalai Lama, Martin Luther King, só para citar alguns. Contudo, para isto é necessária muita competência. Logicamente não falo de competência técnica e sim de competência comportamental. Infelizmente, o que é uma ‘menina dos olhos’ dos gestores e deveria ser um exemplo nos líderes torna-se cada vez mais uma utopia. Fruto natural de líderes que fazem questão de manter a pose, quando na verdade são totalmente despreparados para lidar não apenas com a responsabilidade de seus cargos, mas principalmente demonstram nitidamente a falta de habilidade em lidar com pessoas. 

domingo, 15 de maio de 2011

Você é ‘do ramo’?

Antigamente, era muito comum ao final do anúncio de algum produto ouvir o locutor dizer: ‘Disponível nas melhores casas do ramo’. Hoje este termo caiu em desuso e pode até ser substituído, ainda que não integralmente, por setor, segmento ou área. Mencionei este fato porque em textos anteriores disse que é fundamental fazer o que se gosta, para que tenhamos sempre o tal ‘brilho nos olhos’.
Antes de concluir o raciocínio, foi inevitável que voltasse à minha memória uma história de quando eu era garoto e jogava futebol competitivamente. Tive um técnico, hoje falecido, que era militar. Militar mesmo, tenente do exército. Imagine um tenente treinando crianças para jogar futebol. Pior que saía coisa boa. E fui descobrir bem mais tarde o quanto algumas destas coisas que aprendi eram importantes. 
Mas o fato que quero mencionar acontecia, via de regra, quando algum garoto ia fazer testes, a famosa ‘peneira’ e não passava. Alguns pais, muitos deles tentando concretizar seu próprio sonho através do filho, ficavam irritados e às vezes até grosseiramente interpelavam meu treinador, Sr. Geraldo sobre qual era o motivo da dispensa do filho. Eis que o Sr. Geraldo de modo bem educado e paciente dizia: “Olha, meu senhor, seu filho é um garoto bacana, mas ele não é ‘do ramo’. Talvez ele seja bom em basquete, vôlei, seja um bom desenhista, músico, mas em relação ao futebol, ele não é do ramo”.
Sinceramente achava aquilo duro demais. É possível até que alguns bons jogadores tenham sido equivocadamente avaliados por ele, mas hoje entendo perfeitamente o que ele queria dizer. Não adianta forçar a barra, pois algumas pessoas não combinam com determinadas atividades. Veja bem, acredito que é possível desenvolvermos novas habilidades, novas competências e nos aprimorarmos bastante, mas há algo inato, algo intrínseco que acaba sendo o grande diferencial. 
Imagine o seguinte: Posso tentar aprender a jogar tênis. Certamente desenvolverei habilidades, mas jamais serei um exímio tenista. Posso aprender tocar piano, mas não serei pianista. Dá para perceber a diferença? É aí que reside a grande questão. Tocar piano é diferente de ser pianista. Pessoas que não são do ramo, conseguirão ser na melhor das hipóteses medianas, esforçadas ao realizar seu trabalho. Pode até haver transpiração, o que é importantíssimo, mas dificilmente haverá inspiração, aquilo que diferencia uma pessoa ‘acima da média’ das pessoas comuns naquilo que fazem. 
Seria maravilhoso que cada ser humano tivesse consciência de suas potencialidades, investisse em seus talentos e habilidades e fizesse o que gosta. Infelizmente, o que vemos são pessoas direcionadas por pais ou familiares a seguir um caminho, guiadas unicamente pelo apelo financeiro ou pior, desenvolvendo atividades sem saber o porquê e para as quais não estão motivadas e muito menos capacitadas. 
Contudo, para isso é necessária uma autocrítica imparcial, uma dose extra de sinceridade consigo mesmo e uma coragem interior enorme para realmente admitir que não somos talhados para determinada função. Difícil, não é?